Sua partida desperta a memória de uma época que marcou o interior brasileiro
Há pessoas que passam pela vida deixando rastros que o tempo não consegue apagar. Assim foi Aparecido de Oliveira, o Cidão, perda lamentada em Castanheira nesta quarta-feira, 08, entre familiares e amigos enlutados, que deixa uma história construída com trabalho, simplicidade, amizade e amor pelo campo.
Natural de Porto Estrela, Cidão encontrou em Castanheira o lugar onde escreveu boa parte de sua trajetória. Foram 21 anos vivendo no município, período suficiente para conquistar o respeito e a admiração de muitos. Tropeiro experiente, domador talentoso e homem de palavra, carregava uma paixão que o acompanhou por toda a vida: o cuidado e o manejo dos animais.
Mas sua grandeza não se limitava à lida campeira. Quem o conheceu sabe que por trás do chapéu inseparável e da postura firme de homem do campo existia alguém sempre disposto a estender a mão ao próximo. Ajudar era um gesto natural para Cidão, que cultivava amizades sinceras e valorizava, acima de tudo, a família.
O espaço onde viveu seus últimos anos, em uma chácara nas proximidades do Posto do Leo, na saída para Juína, agora experimenta o silêncio deixado por sua ausência. O chapéu que tantas vezes protegeu o rosto do sol, o costume da montaria, os caminhos percorridos a cavalo e as histórias contadas entre amigos tornam-se lembranças preciosas de uma presença agradável.
Sua partida também desperta a memória de uma época que marcou o interior brasileiro. Cidão representava a figura do tropeiro raiz, daqueles que conduziam boiadas pelas estradas de chão, levantando a poeira que inspirou versos e canções sertanejas. Em suas lembranças permanecem o som forte e distante do berrante, as longas jornadas, as paradas para descanso e a tradicional “boia” compartilhada ao longo do caminho. Cenas que hoje pertencem cada vez mais à memória, mas que viverão através das histórias deixadas por homens como ele.
A dor da despedida é sentida especialmente pela família. "Foram 65 anos de convivência que vão fazer muita falta", resumiu um familiar, emocionado, ao Castanheira News.
Cidão deixa a esposa, Vilma França de Jesus, seis filhos, nove netos e uma legião de amigos que guardarão para sempre sua lembrança. Mais do que um domador ou tropeiro, parte um homem que honrou suas origens, valorizou sua família e construiu uma trajetória digna de respeito.
A cerimônia de despedida acontece na Casa da Saudade. O sepultamento está previsto para as 17 horas desta quarta-feira, 8 de julho, sob os cuidados da Pax São José.
Hoje, o berrante silencia. A montaria descansa. A estrada segue seu curso. Mas a memória de Cidão continuará cavalgando pelos campos de Castanheira, onde seu nome permanecerá vivo no coração daqueles que tiveram o privilégio de conhecê-lo.