Honesto, respeitado e profundamente ligado à família, gostava da casa cheia nos finais de semana.
Antes mesmo de Castanheira ganhar contornos de cidade, quando ainda era apenas um vilarejo cercado por sonhos e desafios, Joaquim Nicolau dos Santos já observava aquelas terras com o olhar de quem enxergava futuro. Chegara à região nos anos 1970, vindo pela rota percorrida por tantos pioneiros que entraram no norte mato-grossense através de Vilhena, em Rondônia. Inicialmente estabelecido em Fontanillas, foi alguns anos depois que encontrou o lugar onde fincaria suas raízes definitivas: a Linha 3, onde construiu sua vida, sua família e sua história.
Ali, no Sítio Santa Luzia, viveu até os últimos dias de sua longa jornada, encerrada nesta semana, aos 92 anos. Homem da terra, Joaquim encontrava na agricultura mais do que um meio de sustento. Encontrava propósito. Como tantos desbravadores que ajudaram a construir Mato Grosso, acreditava no trabalho diário, na força das mãos e na esperança que nasce toda vez que uma semente é lançada ao solo.
A história ensina que as grandes comunidades são edificadas por pessoas simples, mas extraordinárias. O historiador britânico Thomas Carlyle escreveu certa vez que "a história do mundo é, em grande parte, a biografia dos grandes homens". Mas há uma grandeza que raramente aparece nos livros: a dos pioneiros anônimos, dos pais de família, dos agricultores que transformam mato em lavoura e esperança em realidade. Joaquim foi um desses homens.
Honesto, respeitado e profundamente ligado à família, gostava da casa cheia nos finais de semana. Era nesses momentos que encontrava sua maior riqueza: a convivência com os cinco filhos, treze netos e oito bisnetos. Segundo a neta Zidelma, receber a família era uma de suas maiores alegrias.
Na Casa da Saudade, onde familiares e amigos se despedem nesta quarta-feira, o sentimento é paradoxal. Há tristeza pela ausência que deixa e pelos silêncios que ocuparão espaços antes preenchidos por sua presença. Mas há também gratidão. Gratidão por uma vida bem vivida, por um legado construído com trabalho, fé e dignidade, em tempos nos quais exemplos como o seu se tornam cada vez mais raros.
A filha Irene e as netas Franciele e Gisele recordam com carinho algumas de suas marcas mais características: o prazer de viajar, o gosto por um bom café e o amor pela agricultura familiar, atividade à qual dedicou décadas de sua existência. Pequenos hábitos que, somados, revelam a beleza das vidas autênticas.
Mas Joaquim também cultivava uma singularidade que permanecerá viva na memória de quem o conheceu. Aos domingos, costumava percorrer caminhos e estradas em busca de pedras diferentes encontradas na natureza. Talvez enxergasse nelas algo que muitos não viam: a beleza escondida nas coisas simples, a mesma beleza que marcou sua própria trajetória.
Nascido em Conceição, na Paraíba, em 1933, viveu em São Paulo, Goiás e Mato Grosso. Conheceu diferentes paisagens e culturas, mas foi em Castanheira que escolheu permanecer. Foi ali que encontrou não apenas uma terra para morar, mas um lugar para pertencer.
Católico zeloso e homem de fé sincera, será homenageado em ofício religioso nesta quinta-feira, às 9 horas, antes do sepultamento no Cemitério Bom Jesus.
Por tudo o que foi e pelo que construiu, Joaquim Nicolau dos Santos será lembrado não pelos títulos que teve, mas pelos valores que deixou. Sua história se confunde com a própria história de Castanheira. E quando o tempo passar, como sempre passa, permanecerá a lembrança daquele homem simples que amou a terra, acolheu a família, honrou sua fé e ajudou a construir uma comunidade inteira.
Porque há pessoas que partem, mas não vão embora. Permanecem nas estradas que abriram, nas sementes que plantaram, nas histórias que contaram e no coração daqueles que tiveram o privilégio de caminhar ao seu lado.